26 de Fevereiro de 2012

Meganeura

Imagine, caro leitor, que um dia, ao sair de sua casa, dava de caras com o seguinte indivíduo voando directo à sua cara:



Pois saiba, precioso leitor, que esse bicharoco dá pelo nome de meganeura e é possuidor de abastada envergadura, chegando ela aos oitenta centímetros. Se quiser, busque por uma fita métrica e estique-a diante de si numa superfície à escolha, marcando visualmente o valor em escala métrica que acabei de lhe passar.

Este espantoso insecto habitou o planeta Terra durante o Carbonífero, uns trezentos milhões de anos contando para trás e assemelhava-se às actuais libélulas. A descoberta deste bicho alado data dos finais do século XIX quando foi encontrado o seu fóssil nas terras de França. Lembremo-nos que em tempos antigos, nomeadamente no deste animal, os insectos obtinham fantásticas medidas de tamanho, sendo a meganeura um dos maiores da altura. Em tempos actuais, os maiores gigantes do mundo insectífero medem, aproximadamente, um palmo de comprimento. Um palmo de adulto, claro está porque, de maneira geral, não nos passa pela cabeça medir as coisas em palmos de criança ou de adolescente. E isto, sem entrar no valor exacto do palmo, pois que não é esse o assunto que debito neste texto que ides tendo perante vós.

O indivíduo que tenho tido em atenção neste escrito alimentava-se de outros insectos e também de pequenos anfíbios e povoava os ares da altura, pousando nos locais acessíveis ao seu tamanho e fortes o suficiente para suportar o seu peso.





Origem das imagens:

Primeira imagem
Segunda imagem

23 de Fevereiro de 2012

Tabuleta et cetera

Aqui a escrever, et cetera. E de uma tabuleta. Era também. Tanto o et cetera como a tabuleta e havia outra coisa, mas já não me lembro o que era. Era outra coisa e de outra cor, a tabuleta era de uma cor e o et cetera de outra. A terceira cor era da outra coisa. Não pintei nada de outra cor para não mudar cor nenhuma. Deixei tudo como estava e depois arrumei numa gaveta. Foi complicado encontrar o et cetera, meteu-se entre a roupa que estava na gaveta. A tabuleta era grande e ficou com uma ponta de fora e foi fácil encontrá-la. Vi-lhe a ponta e concluí que era a tabuleta. Também a reconheci pela cor. Acho que o meu vizinho não reconhece cores ou é a mulher dele ou o filho ou o tio. Talvez seja o tio. O tio é casado com a tia. Às vezes visitam o meu vizinho e a mulher do meu vizinho mas nunca lhe trouxeram uma tabuleta. Esta minha, encontrei-a eu. Ninguém ma trouxe. A tia não deve gostar de tabuletas. Ela mora com o tio num sítio sem tabuletas. Todos se perdem lá porque não há tabuletas para orientar. Quando lá for, espetarei uma tabuleta no chão e nela se lerá “et cetera”. Não sei onde fica o sítio onde a tia mora com o tio. Pergunto-lhes quando visitarem o meu vizinho e a mulher do meu vizinho. Falo pouco com eles mas tenho de lhes falar para lhes fazer a pergunta. A tia deve responder-me porque gosta de falar comigo. O tio é mais calado e sorri às vezes. O vizinho e a mulher dele também sorriem quando são visitados. A mulher do vizinho sorri mais que a vizinha. O filho é raro estar em casa, costuma estar em casa de amigos ou na escola. A tia traz sempre um saco ou dois com coisas que devem oferecer ao vizinho e à mulher do vizinho. Quando saem já vão sem sacos e vão para o lugar sem tabuletas. Irei espetar uma no chão quando lá for. Uma tabuleta de uma cor que combine com a paisagem. O tio e a tia devem vir jantar a casa do vizinho nos dias da visita. Às vezes ouço talheres pousar sobre os pratos e pessoas a rir na casa do vizinho. Devem rir enquanto jantam. Quem cozinha deve ser a mulher do vizinho. Quando o tio e a tia vêm visitá-lo o cheiro da comida que a vizinha cozinha é diferente. Nesses dias o cheiro é mais apurado, mais agradável. Nos dias em que não há visitas o cheiro é mais banal, menos apurado. Às vezes recebem visitas de outras pessoas e nesses dias o cheiro da comida também é mais apurado. Quando o tio e a tia saem de casa do vizinho e da mulher do vizinho regressam ao lugar sem tabuletas.

20 de Fevereiro de 2012

O homem engravatado que trazia um dossier na mão

Entrou por uma janela da minha sala, um homem engravatado que se dirigiu a mim e entregou-me o dossier que transportava numa mão.

— Você deve guardar este dossier e não o pode perder, dar ou emprestar a quem quer que seja — disse-me ele.
— Está bem.
— Eu voltarei daqui a uns dias para o recuperar e até lá você deve ficar sentado no seu sofá com o dossier nas mãos.
— Devo ficar sentado no sofá?
— Sim, foi o que lhe acabei de dizer. Até daqui a uns dias.

O homem retirou-se, saindo pela mesma janela, e eu sentei-me no sofá, conforme as indicações que tinha recebido.

Nada aconteceu nos dias em que me mantive sentado no sofá, até que chegou o dia em que o homem voltou, tornando a entrar pela janela.

— Já se pode levantar agora — disse-me ele.
— Pensei que o senhor demorasse menos dias a regressar.
— Pensou? Porque diz isso? Eu nem lhe disse quantos dias iria demorar.
— Pois, não disse, é verdade. Eu é que julguei que não demorasse tanto.
— Ora, isso é um disparate porque eu não lhe disse quantos dias iria demorar portanto, em caso algum, você poderia fazer uma estimativa do meu regresso sem ter dados de apoio. O seu cálculo foi assente no mais completo vazio.
— Eu sei que não me disse quantos dias iria demorar. Eu é que entendi que seriam menos dias.
— Não sei se você é parvo ou se se está a armar em espertinho, mas isso não me interessa porque tenho mais em que pensar. Você agora tem que me acompanhar.
— Ir com você?
— Sim, mas antes eu terei que reaver o dossier e isso quer dizer que você tem que mo devolver.
— Aqui está — disse eu enquanto lho passava para a mão.
— Agora levante-se e acompanhe-me, por favor.
— Antes de me levantar, eu gostaria de saber, em primeiro lugar, porque razão tenho de o seguir e, em segundo lugar, quero saber para onde vou.
— Isso não lhe posso dizer.
— Não pode?
— Não.
— Porque não pode dizer?
— Porque seria preciso que eu tivesse autorização para lhe dizer.
— Porque não trouxe a autorização?
— Porque é você que me tem que dar autorização para eu lhe responder às perguntas que você me fez.
— Então eu autorizo-o a responder-me.
— Não pode ser assim. Para me autorizar, você precisa de um documento oficial e é nesse documento que é assinada a autorização.
— Onde posso arranjar esse documento oficial?
— Pode pedi-lo a mim.
— Então dê-me um documento oficial, por favor.
— Aqui está – diz ele, estendendo-me um papel onde se lê, no topo, “Documento Oficial”.
— Obrigado.
— Pode confirmar que é um documento oficial porque está escrito no topo da folha “Documento Oficial”.
— Sim, pois está. O que faço agora?
— Você só tem que escrever aí que me autoriza a responder às perguntas que me fez.
— Tem uma caneta que me empreste?
— Sim, tenho. Tome.
— Obrigado. Vou então escrever que “Eu autorizo que você me responda às perguntas que eu lhe fiz”. Pode ser assim?
— Pode. Só não se esqueça de assinar por baixo para tornar oficial o documento oficial.

Escrevi e assinei.

— Aqui está — disse eu, entregando o papel já escrito e assinado.
— Obrigado.
— Responda-me agora, por favor.
— Você deve seguir-me porque são as ordens que eu tenho e vou levá-lo para a sua sala.
— Para a minha sala? Mas eu já estou na minha sala.
— Sim, correcto. Mas eu vou levá-lo para a sua sala.
— Mas já lhe disse que já cá estou. Não preciso de ir para a minha sala porque já cá estou.
— Correcto, mas vou levá-lo para a sua sala.
— Quem lhe deu essas ordens?
— Fui eu que mas dei.
— Então altere-as — pedi-lhe.
— Não posso.
— Porque não?
— Porque é necessário que você assine um documento oficial no qual se autoriza a pedir a si próprio que me dê autorização para alterar as ordens que eu me dei.
— Dê-me então um documento oficial e a caneta.
— Aqui está.
— Escrevo “Autorizo-me a dar-me autorização para alterar as ordens que você deu a si próprio”?
— Sim e assine por baixo.

Escrevi e assinei.

— Aqui está o documento. Tome, agora altere as suas ordens — disse-lhe eu enquanto lho passava para a mão.
— Obrigado.
— Já as alterou?
— Já, já as alterei.
— Então e agora? Preciso de outro documento para que você saia de minha casa?
— Não, claro que não, mas eu não posso sair.
— Não? Porque não?
— Porque preciso de encontrar outro indivíduo que não você para entregar o dossier a esse outro indivíduo.
— Porque não vai à procura desse outro indivíduo? Precisa de um documento oficial que o autorize?
— Sim, eu preciso de um documento para ir à procura de outra pessoa e tem que ser essa outra pessoa a autorizar-me a ir à procura dela. Como as minhas ordens foram alteradas, só assim é que podemos resolver este problema.
—Você não sabe quem é essa outra pessoa?
— Não.
— Então como vamos resolver isto?
— Não sei.
— Como não sabe? Como se costumam resolver estes casos?
— Não sei. É um problema que não é contemplado.
— E não pode ser contemplado a partir de agora?
— Pode mas tem que ser essa outra pessoa a passar um documento que me autoriza a contemplar este problema a partir de agora.
— E se eu fingir que sou outra pessoa? Se eu fingir que outra pessoa posso resolver-lhe esse problema e você vai procurar outra pessoa para lhe entregar o dossier.
— Por um lado você pode fingir que é outra pessoa mas, por outro, não pode porque eu sei que já lhe entreguei o dossier a si e não o posso entregar duas vezes à mesma pessoa.
— Pois… É um assunto complicado.

Batem à porta da minha casa e vou abrir. Do lado de fora está um homem engravatado com um dossier que me mostra um cartão de identificação e diz-me:

— Boa tarde, caro senhor. Eu sou da Empresa que Fiscaliza os Homens que Entregam Dossiers e estou em sua casa porque demos pela falta de um deles que já deveria ter regressado ao seu posto, na sede. Sabemos que ele veio aqui ter porque era a ordem de serviços que ele tinha.
— Está aqui um, sim. Mas está num impasse.
— Num impasse? Como assim? Isso não é possível porque só eu, que sou o chefe de secção, é que lhe posso dar autorização para estar em impasse e eu tenho a certeza que não lhe dei qualquer autorização. Como foi isso acontecer?
— Ele disse-me que eu tinha que ir com ele e eu recusei-me.
— Recusou-se? Porquê?
— Uma das razões foi o facto de eu já me encontrar na minha sala, que era o local para onde eu o deveria seguir.
— Mas você deveria ter ido com ele porque eram essas as ordens que ele se deu a si próprio. Agora percebo o impasse. Você é que é o culpado.
— Culpado? Por me ter recusado a aceitar a ordem de seguir o homem que me iria levar à minha sala, onde eu já me encontrava?
— Certo. Agora terei que lhe passar uma multa. Preciso de usar o seu telefone. Posso entrar?
— Claro, entre. O telefone está na sala.

O fiscal entrou e dirigiu-se ao telefone, através do qual pediu a presença imediata de um fiscal que passa multas. Nos poucos minutos de espera por ele, ficámos todos em silêncio. Por fim, bateram à porta de minha casa e eu fui abrir. Era um homem com um cartão de identificação que se apresentou:

— Boa tarde, prezado senhor. Eu sou o fiscal que passa multas da Empresa que Fiscaliza os Homens que Entregam Dossiers e tenho aqui uma multa para si. Queira assinar este documento e pagar a quantia que nele surge.

Assinei e paguei a quantia devida.

— Agora você deve acompanhar-me — disse ele.
— Devo acompanhá-lo? Porquê? Já assinei e já paguei.
— Já assinou e já pagou mas é necessário que eu receba autorização para aceitar o seu pagamento.
— Mas eu já lhe dei o documento e a autorização e você já aceitou tudo.
— Pois já, mas ainda não de forma oficial.
— Não posso ser eu a autorizá-lo se você me der um documento oficial?
— Não, porque quem pode é o meu superior e ele está na sede.
— Vamos à sede, nesse caso.
— Obrigado. Queira seguir-me, por favor.

Fomos até à sede e quando lá entrámos encaminhámo-nos para um escritório em cuja porta se lia “Superior de autorização. Secção de multas”. Aí entrámos e dei de caras com um homem sentado a uma secretária. O fiscal de multas pediu-lhe a tal autorização para aceitar o pagamento da minha multa que, de imediato, foi passada. Passámos depois, eu e o fiscal que passa multas, para uma pequena sala contígua ao escritório do superior.

— Agora você tem que mudar de casa — disse-me ele.
— Tenho que mudar? Porquê?
— Porque é necessário que a sua casa tenha um novo dono para que o homem que entrega dossiers possa encontrar a outra pessoa. É a única maneira que há de resolver este problema.
— Eles não podem sair de minha casa e ir para casa de outra pessoa?
— Não. Você precisa de vender a sua casa e tanto o homem que entrega dossiers como o homem que fiscaliza os homens que entregam dossiers, irão ficar em sua casa nas exactas posições em que se encontram actualmente, até que haja um novo dono nela.
— Mas eu gosto da minha casa e não me quero mudar. Não é possível eu vender a casa a mim mesmo?
— Não porque você não é outra pessoa. E não vale a pena disfarçar-se de outra pessoa porque nós sabemos que você é você.
— E não podem alterar, a partir de agora, o facto de uma pessoa poder vender a sua própria casa a si próprio?
— Não.
— Porque não?
— Porque não há ninguém que autorize esse tipo de mudanças e a única pessoa a poder dar autorização para essa alteração seria a pessoa que lhe vai comprar a casa.
— Então e se eu vender a casa a mim próprio e der, depois a autorização?
— Não pode porque você não é outra pessoa.
— Não há nenhum documento oficial que eu possa preencher que me dê autorização a que eu seja outra pessoa?
— Há.
— A quem o peço?
— A mim.
— Dê-me um, por favor.
— Tome — estende-me uma folha de papel com “Documento Oficial” escrito no topo.
— Escrevo “Autorizo-me a ser outra pessoa”?
— Sim e assine por baixo para oficializar.
— Pronto, já está. Tome.
— Obrigado. Agora você é outra pessoa.
— Vou regressar a casa para receber o dossier e passar uma autorização para que o homem que entrega dossiers saia de minha casa e entregue o dossier à primeira pessoa que encontrar, quando sair de minha casa.
— Você não pode fazer isso.
— Não posso? Porque não?
— Porque aquela casa não é sua, mas sim de outra pessoa e você só poderia agir conforme a sua ideia se tivesse comprado a casa ao anterior dono.
— Mas eu tenho a chave daquela casa, da minha casa.
— Você tem a chave de uma casa que não a sua? Se assim é, é necessário que o prendamos porque é possível que você tencione assaltar uma casa que não é sua. Você está preso. Queira acompanhar-me, por favor.

19 de Fevereiro de 2012

Depois segurei no teclado

Depois tentei escrever um texto dando cabeçadas nas teclas e depois usei apenas os cotovelos e os ombros e depois usei apenas as costas. É sempre muito interessante e muito engraçado e depois entrei num elevador e fiquei de costas para a porta e quando saí mostrei as minhas costas a toda a gente. Fico sempre muito divertido quando o faço. Depois pedi que me mostrassem as costas e toquei nas costas das outras pessoas. Depois usei os cotovelos para tocar no nariz das outras pessoas porque as outras pessoas não gostam que eu o faça. Também é muito divertido e quando vou ao restaurante seguro o arroz e as batatas fritas com as mãos, amasso tudo numa pasta uniforme e esfrego a pasta na minha cara e fico sempre muito sujo e as pessoas olham para mim com ar enojado e pedem-me para sair do restaurante. Depois saio mas volto a entrar e salto para cima de uma mesa para fazer uma dança sensual porque sou bastante atraente. E pedem-me outra vez para sair e já chamaram a polícia porque eu não queria sair uma vez e eu saí com a polícia e fui preso. Não fui preso muito tempo mas fui preso e quando estava na cela também dancei sensualmente e o outro prisioneiro pediu para mudar de cela porque era muito macho e veio um polícia e mudou-o de cela e disse-me para parar de dançar. Depois saí da prisão e entrei no restaurante para dançar a dança sensual e dessa vez eu estava todo nu e só tinha um cachecol a tapar o pescoço porque estava frio e os clientes não gostaram mas houve uns que gostaram. Depois vesti-me e saí a correr porque a polícia vinha aí outra vez e eu corri depressa para ir para casa para fingir que estava a dormir e não dormi nem fingi mas a polícia não apareceu em minha casa. Tomei banho e saí outra vez para o restaurante para lhes mostrar uma nova dança sensual que tinha inventado nesse momento e os empregados do restaurante correram muito atrás de mim porque não gostaram da dança e quiseram expulsar-me mas eu despistei-os porque me escondi atrás de um muro e eles não me viram quando passaram. Depois correi para o restaurante e pedi a um cliente para me tocar nos genitais e ele recusou e eu fui expulso do restaurante e fiquei a dançar uma dança sensual do outro lado da rua. Depois o dono do restaurante chamou a polícia e a polícia veio atrás de mim e eu corri muito para fugir à polícia e consegui fugir porque corri muito. Depois voltei ao restaurante mas o dono estava à porta e eu não pude entrar e eu esperei que ele saísse para eu entrar e eu entrei quando ele saiu. Depois subi para uma mesa e fiz uma dança que era novidade e os clientes não gostaram e alguns já estavam fartos de mim. Depois saí do restaurante e ainda não voltei lá para dançar outra vez uma dança sensual.

18 de Fevereiro de 2012

Estou sempre em casa mas às vezes não

Às vezes saio de casa, mas isso é antes. Antes não sei de quê, mas é antes. Depois é que saio. Quando saio deixo de estar em casa e isso já é depois de antes. Sei porque antes eu estava fora do fora de casa e abro a porta às vezes. Outras vezes não porque também tenho um buraco aberto numa parede e passo por ele. Quis fazer dele outra porta ou uma janela mas não acabei e ficou um buraco. Já me quiseram vender um vidro para pôr nele mas recusei porque eu não quis. Se eu tivesse posto um vidro talvez tivesse sido preciso pôr-lhe uma cortina para cobrir o interior de casa. De uma cor qualquer, não sei qual. Talvez uma qualquer ou outra que lá ficasse bem. Uma que combinasse com a cor da parede. Sem vidro posso sair pelo buraco e entrar também. Mas sei que não é possível sair pelo buraco e pela porta em simultâneo porque ou saio pelo buraco ou saio pela porta. Acontece o mesmo quando entro, ou entro pela porta ou entro pelo buraco. Em simultâneo não é possível. Abri o buraco à martelada e ficou aberto. Martelei a parede para o abrir e ele ficou aberto e deitei o conteúdo do buraco para o lixo. Depois é que veio o homem que me quis vender o vidro mas eu recusei. O homem foi-se embora e levou o vidro com ele. Não me lembro de que cor era o vidro mas o homem levou-o de volta. Depois fiquei com o buraco aberto na parede. Quando chove entra água pelo buraco e o chão de casa fica alagado. Depois evapora e fica seco. Se chover vários dias seguidos fico muito tempo com água dentro de casa e se fizer Sol vários dias seguidos fico muito tempo sem água dentro de casa. O homem também disse que o vidro evitava que entrasse chuva e vento mas eu não quis. Depois ele foi-se embora e levou o vidro com ele. Depois choveu e entrou água mas não estava vento. Depois veio outro homem que vendia portas que tapam buracos mas também não quis e o homem foi-se embora e levou a porta. Depois ficou o buraco e a porta e eu pude sair por qualquer deles. O buraco ou a porta mas não em simultâneo. Um de cada vez porque não posso sair em simultâneo por dois lugares diferentes. A porta fica perto do buraco mas mesmo assim não é possível sair por eles em simultâneo. Quando me visitam, as pessoas não sabem se devem entrar pela porta ou pelo buraco. Costumam escolher a porta ou o buraco. Depois entram. Se choveu o chão está molhado, se não choveu o chão está seco. Quando as visitas saem também ficam indecisas. Depois saio de casa, mas isso é às vezes. Outras vezes não saio de casa. Quando saio deixo de estar em casa e depois volto. Estou sempre em casa mas às vezes não.

11 de Fevereiro de 2012

São contos contados em recortes

Que nem sei muito bem sobre o que seria essa hipotética parte três e isto porque me antecipei, fazendo da segunda um pouco aquilo que seria a terceira. É claro que poderei descrever a vila, dar uma noção da configuração das ruas, se se situa na margem esquerda ou direita do rio ou em que parte da povoação se situam os edifícios mais antigos e, nesse caso, teria texto para mais umas tantas frases porque aproveitaria para fazer uma descrição minuciosa de muitas janelas, portas, edifícios, de um ou outro habitante, da cor de uma parede ou de uma fissura de outra parede. Enfim, há um sem número de objectos que poderão ser alvo de atenção da minha parte mas que deixarei para outra oportunidade, se para isso tiver pachorra, claro.

Deixarei para depois qualquer desenvolvimento que se desenrole a partir do anterior parágrafo que é aquele que ficou para trás ou para cima.

E mais informo que o título deste escrito nada tem em comum com o assomar de ideias de escrita que brotam neste texto. É apenas um título que tem esse nome, de “título”. Poderia ser outro título qualquer, mas o que ficou é o que me lembrei primeiro. E é mais do que certo que não farei a descrição de qualquer vila ou lugarejo maior ou mais pequeno porque, pelo menos até agora, não tenho tensões de o fazer. Talvez lá mais para diante, se o texto virar para aí. Se assim for, irei descrever minuciosamente cada pedaço da vila, cada vidro, cada fissura, cada qualquer outra coisa. Criarei também personagens porque é suposto que haja habitantes numa vila. Não sei se muitos ou poucos mas alguns, pelo menos. Haverá também ruas mais importantes e outras nem tanto e uma pitoresca esplanada junto ao rio que atravessa o lugar. Se vier a fazer essa descrição, poderei alterar o título para “Descrição da vila”, mas para já não preciso porque ainda não estou decidido a descrever o que quer que seja.

Qualquer desenvolvimento que se desenrole a partir do anterior parágrafo que é aquele que ficou para trás ou para cima. Deixarei para depois, seja a descrição minuciosa de um vidro ou parede ou de um habitante característico ou da rua junto ao rio. Talvez haja também um prato típico da região, não sei se de carne ou peixe ou talvez até possa ser um doce afamado, daqueles que alimentam a vista só de os ver e se aconchegam na perfeição no estômago de um apreciador desse tipo de oferendas alimentares. Se assim for, haverá, talvez, um cozinheiro ou pasteleiro famoso que centre sobre si a exacta maneira de confecção culinária. Talvez esse prato ou esse doce atraia turistas de todo o lado e a esplanada do rio se encha de pessoas que vêm especialmente por essa delícia alimentícia. E se houver turistas, talvez haja um ou outro hotel que lhes serve de alojamento mas estou certo que não será nenhum arranha-céus porque, além de não lhes achar grande piada, tirando um ou outro que é, de facto, fantástico, os edifícios que compõem esta vila possuem poucos andares e, como tal, qualquer construção que cresça claramente acima do regulado, seria, possivelmente, um atentado às regras arquitectónicas de um lugar que se quer sem arranha-céus. E nem creio que os habitantes do vilarejo tivessem prazer em ver a sua vila povoada por um edifício de proporções gigantescas ou até com uma arquitectura espampanante. Se assim fosse, essa construção seria certamente alvo de apupos mais ou menos sonoros e debatidos em conferências públicas e conversas privadas.

É certo que esse hotel se situaria num local relativamente próximo do rio porque as vistas paisagísticas são as melhores nessa parte da vila. Assim, da janela do seu quarto, um turista poderia ver a rua que ladeia o rio, que se situaria um ou dois andares abaixo; do lado de lá do piso asfaltado e do caminho dos peões ficaria visível o fluxo de água e um pouco lá mais para diante, olhando para a direita, estaria a esplanada pitoresca. Do outro lado do rio a vegetação brota em relva, arbustos, árvores e uma ou outra flor.

10 de Fevereiro de 2012

O petroleiro

Entrou-me um petroleiro pela janela da sala e interrompeu a minha leitura de um livro. Depois o comandante do navio, meteu a cabeça de fora da ponte de comando e pediu desculpa pelo acontecido. Ele teve que gritar porque o barco era muito grande e, por isso, ele estava lá longe: “Desculpe, caro senhor. Não me dei conta que estava tão perto de sua casa”.

Aceitei as desculpas porque sou uma pessoa educada e gritei-lhe de forma prazenteira, perguntando-lhe quanto tempo iria demorar até tirar a proa do petroleiro da minha sala porque iria ter visitas nessa tarde e tornar-se-ia um pouco constrangedor para mim ter um barco daquele tamanho no interior do meu lar. O comandante demorou um pouco a responder porque deve ter tido necessidade de fazer uns cálculos de modo a dar-me uma resposta exacta. Ele disse-me que não demoraria muito e que perto da hora de almoço já deveria estar despachado. Fiquei satisfeito com a resposta e saí de casa para fazer umas compras no supermercado de modo a ter os ingredientes certos para o jantar que fiquei de preparar para as visitas. De uma maneira geral não tenho grande paciência para me dedicar à culinária e, para mim, qualquer comida serve desde que seja comestível. Há uma ou outra coisa que não gosto mas, fora essas poucas coisas, como de quase tudo. As visitas dessa noite eram especiais e, portanto, mereciam que lhes cozinhasse algo de extraordinário ou, pelo menos, algo com mais dedicação.

Quando saí de casa, estavam a acontecer os primeiros trabalhos preparatórios para remover a proa do petroleiro da minha sala e ia já a caminho do supermercado quando me lembrei que devia ter perguntado ao comandante sobre quem se responsabilizaria não só pelos estragos das paredes e da janela, como também por alguma sujidade que se espalhou aquando da colisão.

Ao regressar a casa fiquei bastante contente por ver que o trabalho de remoção do barco estava já bastante adiantado, o que me fez tomar o comandante por um homem de palavra. Ele deu conta de eu voltar a casa com as compras e desembarcou, aproximando-se de mim, para trocarmos dois dedos de conversa. Apresentamo-nos e ele, mais uma vez, desculpou-se pelo sucedido e eu voltei a dizer que não havia qualquer problema e que são coisas que acontecem. Aproveitei para lhe perguntar quem se responsabilizaria pelos estragos e pela sujidade e ele, amavelmente, ofereceu-se para, do seu próprio bolso, pagar a reconstrução da sala e respectiva limpeza. Agradeci esse seu gesto simpático e continuámos a conversa enquanto ele orientava a sua equipa sobre a melhor maneira de proceder ao objectivo. Eu, entretanto, fui para a cozinha para começar a preparação do jantar. Decidi-me por não cozinhar nada de elaborado, optando por algo mais simples e que me desse a certeza de um resultado bastante satisfatório.

Enquanto o fazia, ouvi uma voz à porta da cozinha pedindo licença. Virei-me e vi que era o comandante. Disse-lhe para entrar e ele informou-me que o trabalho de remoção estava concluído e que iria agora iniciar a reconstrução da sala. Ele tinha telefonado, pouco antes, para uns senhores seus conhecidos que fazem obras que entretanto haviam chegado, começando de imediato os trabalhos com vista à reconstrução. Dado as avançadas ciências de engenharia que usam esses seus conhecidos, calculou-se que a meio da tarde estaria tudo completo e que a limpeza seria bastante rápida porque esses seus conhecidos trabalham com uma equipa de limpeza que utiliza apenas avançados conhecimentos da área de higiene o que origina um menor tempo de trabalho e um resultado mais rápido. À hora anunciada terminou-se as obras de reconstrução e limpeza e, algum tempo depois, chegaram as visitas.

6 de Fevereiro de 2012

Do sabão

E era a proclamação em dó maior do presente do indicativo do verbo de um verbo qualquer e omiti a parte ausente: Eu, Tu, Ele, Ela, Nós, Vós, Eles, Elas. E foi no seguinte: Também. E ainda do outro que diz que já estava com a barba grande e a cheirar muito mal e depois saí do edifício. Mas sem o cheiro porque a barba ficou para trás que era mais ou menos. Ou sou eu que cheiro mal. Não sei muito bem se sou eu ou se é a barba. O bigode não é porque o lavei com sabão há duas ou três semanas. Roubei o sabão da vizinha enquanto a convenci a proclamar em dó maior o presente do indicativo de um verbo que já não me lembro qual era. Era um qualquer, o suficiente para ela berrar algumas palavras que não percebi e eu roubei-lhe o sabão. Também não me lembro da cor do sabão. Depois lavei o bigode mas deixei a barba porque tive que ir almoçar. Foi quando a minha outra vizinha acabou de cozinhar o almoço dela e do marido. Eu bati-lhes à porta porque estava a precisar de farinha. Não estava a precisar de farinha nenhuma mas disse-lhe que estava a precisar de farinha para me fazer convidado para o almoço e entrei e sentei-me à mesa e servi-me do almoço sem que nenhum me convidasse. O almoço estava bom mas não conversámos e depois do almoço fui para casa e sentei-me no sofá mas levantei-me logo a seguir porque me lembrei que me tinha esquecido de lavar a barba. Aliás, não me tinha esquecido porque optei por não a lavar para ter o que almoçar. Nesse dia não tinha comida em casa. Tinha-se acabado uns dias antes e foi por isso que me levantei do sofá para ir comprar comida mas não tinha dinheiro e bati à porta da casa da vizinha, daquela que me emprestou o sabão que eu não devolvi. E pedi-lhe dinheiro mas ela não me quis dar e tive que lhe pedir outra vez e ela tornou a recusar e tive que entrar à força na casa dela para procurar onde ela o guardava. Depois fui comprar comida ao supermercado e quando voltei dei uma parte da comida à vizinha porque foi com o dinheiro dela que a comprei e dei-lhe também o troco porque o dinheiro não era meu. Foi depois que fui lavar a barba e no dia seguinte bati à porta dessa vizinha do sabão e disse-lhe que também mas ela não percebeu e fez cara estranha como quem não percebeu e como não percebeu fui-me embora e voltei para casa. Já não tinha muito sabão uns dias depois mas ainda dava para me lavar e lavei-me com ele e esfreguei-o sobre mim. Fiquei a cheirar bem mas depois voltei a cheirar mal porque precisei de poupar o sabão porque não queria ir buscar mais à vizinha e não tomei banho durante um mês ou dois. E a barba também cresceu e o bigode também. E saí do edifício porque estava a chover e pensei que a chuva levasse o cheiro mas não levou e continuei a cheirar mal. A minha casa também cheirava mal porque eu cheirava mal. As escadas do meu prédio também cheiravam mal porque a minha casa cheirava mal porque eu cheirava mal. Depois só sobrou um bocadinho de sabão e lavei-me com ele para ficar a cheirar bem e depois o sabão acabou e precisei de ir buscar mais à vizinha.

3 de Fevereiro de 2012

Este texto não está relacionado com a cultura megalítica

Ora que caraças de nóia absurda que agora me passou pela cabeça e que metia um hipopótamo de boca aberta a comer uma lista de artigos que acabei de comprar no supermercado. O problema é que não fui a qualquer supermercado e, mais problemático ainda, eu não faço qualquer lista quando vou ao supermercado. Houve umas alturas em que a fazia mas costumava perdê-la no carro ou ficava esquecida em casa, o que é mais ou menos o mesmo que acontece com os cupões de desconto que se vão quedando estoicamente nas profundezas do porta-luvas. Mas não tenho luvas no porta-luvas e meias também não. Acho que está para lá o livro de instruções do carro que é aquele manual que diz para que servem todas aquelas luzinhas que vão acendendo quando para isso se torna ocasião. A da gasolina acende muito. Há outras que também acendem, como os piscas mas essas precisam que se mova uma alavanca que está ao lado do volante. Quando se põe a alavanca para cima é o pisca da esquerda que se acende e quando se põe para baixo é o direito. É muito engraçado. Fico sempre muito divertido quando o da esquerda acende porque não é bem aquilo que a luzinha quer fazer e isso porque da teoria à prática vai uma diferença. A anarquia deve ser representada quando estão acesos todos os piscas (ou quando estão apagados, não sei muito bem). O da direita também é engraçado quando está aceso. Pisca muito. Acho que é ao contrário: quando a alavanca está para cima é o da direita que acende. Não me lembro bem; depois trato disso. Se alguém buzinar atrás de mim depois de eu ter curvado é porque pus o sistema a piscar do lado errado.

Há também aquele pau espetado no chão e que se põe para a frente e para trás e que até se põe para a frente para o carro andar para trás. E há a roda que gira e que é redonda e umas coisas com uns ponteiros que se mexem. Alguns mexem-se mais do que outros. Também há uma coisa que serve para acender os faróis e quando toco nessa coisa que acende os faróis, ficam também acesas várias luzinhas nos mostradores e noutros locais. O carro tem faróis à frente e atrás mas os de trás são de cor diferente. Excepto os piscas que são da mesma cor. Não adianta mudar de posição porque o cenário é sempre o mesmo quando se olha para piscas. Os piscas quando piscam fazem barulho e esse barulho também é divertido. Os cupões de desconto devem andar por lá, pelo porta-luvas e deve lá haver mais coisas e o manual de instruções. O manual tem muitas páginas e está cheio de letras e de desenhos, mas não fui eu que escrevi essas letras nem fui eu que fiz os desenhos que lá estão. Esses desenhos mostram algumas partes do carro e as letras são agrupadas em palavras e frases para explicar o que se passa nos desenhos. É quase uma banda desenhada e acho que tem setas que apontam para onde for necessário e também tem números e também tem uma parte onde diz a que velocidade anda o carro e quantos cavalos tem e os litros de óleo que leva, a gasolina que gasta, a quantidade de cilindros, o tamanho dos pneus e também diz quantas velocidades têm os limpa pára-brisas, que são aquelas coisas que se mexem muito quando está a chover e diz também mais outras coisas mas não me lembro de mais nenhuma, só me lembro dessas. Quando giro a chave para ligar o motor, o motor faz um barulho mas esse barulho não é tão engraçado como o barulho dos piscas. Se carregar no acelerador o motor faz mais barulho. O acelerador é um pedal que vai para lá quando se põe o pé em cima. Se se fizer mais força com o pé, o acelerador vai mais para lá. Mas só vai para lá até um certo ponto porque depois não vai mais para lá porque tem uma coisa que o impede de ir mais para lá. Acho que é uma coisa parecida àquela que se põe atrás das portas para as portas não irem mais para lá. Deve ser por isso que essas coisas existem, para que os objectos não vão mais para lá. E também há mais pedais ao lado do acelerador e que também servem para serem pisados. E deve haver mais coisas mas agora não me lembro de mais nenhuma.

22 de Janeiro de 2012

Os maiores satélites do Sistema Solar

Desta vez, sabe-se lá porquê, escrevo sobre uma lista dos maiores satélites do Sistema Solar, do nosso Sistema Solar, não de qualquer outro que paire por aí em ponto perdido do Universo. E porquê sobre os maiores satélites e não sobre o maior planeta ou o maior vulcão? Também não sei. Para os leitores mais apressados, coloquei no fim deste texto um quadro onde se apresentam os dez, numa classificação decrescente.

O maior deles todos é Ganimedes, um dos satélites Galileanos que orbita Júpiter, que é também o maior planeta do Sistema Solar. Este planeta é orbitado por dezenas de luas, mas quatro delas, as maiores, dão pelo nome de “Satélites Galileanos” porque foram descobertos por Galileu, em 1610. Ora, dizia eu ou, melhor dizendo, escrevia eu, que Ganimedes é o maior porque mede cinco mil, duzentos e sessenta e oito quilómetros de diâmetro. Olhai, portanto, para a nossa Lua e acrescentai-lhe uns mil e oitocentos quilómetros.

Em seguida, aparece Titã, o maior de Saturno que, curiosamente, é também o segundo maior planeta do Sistema Solar. Titã é ligeiramente mais pequeno do que Ganimedes. Tem menos cento e poucos quilómetros de diâmetro.

Em terceiro lugar, surge outro dos Galileanos. Desta vez é Calisto que aí vem. Ele mede quatro mil, oitocentos e vinte quilómetros de um lado ao outro. Estes Galileanos são verdadeiros gigantes do mundo dos satélites. Observando o seu tamanho, vemos que Mercúrio, o planetazito que orbita as proximidades do Sol, é aproximadamente do mesmo tamanho de Calisto. E mesmo Marte não é assim tão maior que Ganimedes: junte-se uns mil e quinhentos quilómetros ao diâmetro desse satélite e conseguimos o de Marte.

Io é o seguinte da lista e mais outro dos Galileanos. Para este, calha-lhe um diâmetro de três mil, seiscentos e quarenta e dois quilómetros. Io é facilmente identificável não só pela sua cor avermelhada, como também pela sua colecção de vulcões activos.

Segue-se a vez da Lua. Está no quinto lugar, com os seus três mil, quatrocentos e setenta e quatro quilómetro de diâmetro. Quer isso dizer que, quando unimos uma das suas margens à outra, através de uma linha imaginária que atravessa este corpo do nosso céu, passaram-se todos esses quilómetros.

Europa, mais um dos Galileanos, é o cavalheiro que se segue. Ele transporta pouco mais de três mil quilómetros agarrados ao seu diâmetro e veja-se que o seu movimento de rotação faz transportar todos esses quilómetros em torno do seu núcleo. Não nos esqueçamos que os satélites têm, também eles, um movimento de rotação que os faz girar em torno de si próprios.

A título de curiosidade, note-se que os dez maiores satélites do Sistema Solar são pertença de cinco planetas: Júpiter (que inclui na lista os quatro Galileanos), Saturno e Urano (com dois cada um) e a Terra e Neptuno (com um para cada). Há outros planetas com satélites, como Marte, por exemplo, mas porque são eles ridiculamente pequenos não surgem nesta minha abordagem do tema.

Ainda a propósito dos Galileanos, se tiver uns binóculos aí por casa, pegue neles e vire-os na direcção de Júpiter e irá observar pequenos pontos luminosos nas suas proximidades. Esses pontos são os satélites que Galileu descobriu. Às vezes calha ver quatro pontos, outras vezes menos devido ao movimento de translação de cada um em torno do planeta que lhes serve de centro.

O de Neptuno é Tritão, com os seus cerca de dois mil e setecentos quilómetros de diâmetro. À semelhança de Saturno, Neptuno é um dos quatro planetas que ostentam anéis: Júpiter, Urano, Neptuno e, claro está, Saturno.

Titânia, o maior de Urano, aparece agora. Mede quase mil e oitocentos quilómetros de uma ponta a outra. Urano junta-se a Júpiter, Saturno e Neptuno para formar o grupo dos planetas gasosos, sendo que os planetas telúricos são Mercúrio, Vénus, Terra e Marte. Plutão é Plutão.

Reia é o segundo maior do segundo maior planeta. Este é ligeiramente mais pequeno que Titânia. O segundo maior planeta é, como se sabe, Saturno, que se situa para lá de Júpiter e, igualmente, para lá da cintura de asteróides que divide o Sistema Solar interior, do Sistema Solar exterior. Temos então, entre o Sol e a cintura, Mercúrio, Vénus, Terra e Marte e, depois da cintura, Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno. Plutão é Plutão. Foi como que despromovido do seu cargo de planeta.

Também ligeiramente mais pequeno que Titânia e ainda mais ligeiramente que Reia, aparece o último da lista, Oberon, que orbita Urano, lá para os confins do Sistema Solar.

14 de Janeiro de 2012

Os homens A, B, C, D, E, F, G, H, I e J

Lugar no campo nas proximidades de uma pequena povoação. O chão está coberto de relva; ao fundo, à direita, há um grupo de árvores.

Final da tarde.

Dez homens que dão pelo nome de A, B, C, D, E, F, G, H, I e J agrupam-se em círculo, em pé, sobre a relva; todos estão virados de frente para o centro.

O homem D urina em direcção ao centro do círculo.


Homem A — Você urina bem, caro amigo. Já viu, F?

Homem F — É verdade, sim senhor! Você urina que nem um alarve, D!

Homem D — Você sabe que isto é o trabalho de muitos anos. Só a prática me permitiu que agora urinasse como urino.

Homem B — Cabe-me o prazer de o felicitar pelo esguicho, D; sobretudo pela elegância do esguicho. É, de facto, um prazer vê-lo urinar.

Homem H — E até a poça que se abre no solo é sublime! Reparem como escorre por entre a relva e se amontoa naquela cova um pouco mais funda que o terreno circundante.

Homem I — Fantástico! Os meus parabéns, caro D!

Homem D — Muito obrigado, I. E muito obrigado a todos vós pelas felicitações e, sobretudo, pelo prazer que é ouvir-vos dizer belas palavras.

Homem J — Ora, D, sabe muito bem que as nossas palavras só se tornaram possíveis ao vê-lo num acto manifestamente tornado belo.

Homem D — São muito gentis as vossas palavras. Muito obrigado a todos, muito obrigado.

Homem E — A sua bexiga deve ser maior do que a de todos nós, D. Você tem para aí urina que nunca mais acaba.

Homem F — Você é um valente, D! Um autêntico guerreiro! Você é um herói como nenhum outro, caro amigo.

Homem C — Você sabe, D, que andei durante muito tempo a tentar urinar assim, como você. Mas nunca o consegui e deixei-me disso. Você tem certamente um dom que o faz ser assim, um grande do acto de urinar. Você herdou essa qualidade do seu pai?

Homem D — Não, C. O meu pai era uma pessoa muito humilde e não era dado a grandes empreendimentos. Para ele bastava-lhe a comida na mesa todos os dias.

Homem C — Mas há quanto tempo é que você o faz?

Homem D — Já há bastante tempo, C. Comecei a interessar-me pelo assunto na escola primária por ter visto um colega urinar para a sanita. O acto dele era normal, direi mesmo vulgar. Mas na altura não me chamou a atenção o facto de ser vulgar. Apesar disso, fiquei com aquela imagem na memória e um dia, uns anos depois, fiz-me a grande questão: tem o acto que ser assim? E pronto, a partir daí fui sempre praticando e aprendendo cada vez mais um pouco até chegar a hoje.

Homem B — Bela história, meu amigo.

Homem A — E é aliciante vê-lo falar enquanto urina. Você já faz isso tão relaxadamente que nem as palavras que vai dizendo o fazem alterar a sua dignidade!

Homem F — Você é como um deus, caro amigo! É uma maravilha vê-lo urinar!

Homem D — É muita generosidade da sua parte, F. Se você treinar, também o consegue.

Homem F — Não sei se assim será, D. Você ouviu o C; ele disse que tinha tentado mas deu-se por vencido. Você tem um dom, homem!

Homem D — Por favor, amigos. Peço-vos que não me elogiem mais. Haverá, certamente, quem o faça melhor do que eu.

Homem A — Você tem a atitude de um verdadeiro mestre, D: sabe que é bom mas tem humildade para o perceber. Peço-vos, amigos, que nos calemos para que possamos apreciar, em silêncio, o maravilhoso acto que ocorre diante de nós.


E fizeram silêncio, observando o Homem D.

10 de Janeiro de 2012

Espaço contendo uma certa quantidade de letras que, quando organizadas da forma correcta, formam palavras que são, em si, um título

E parece-me que se escrever qualquer coisa por aqui, é possível que se crie uma história ou alguma outra espécie de texto escrito. Vamos lá ver então sobre o que vou eu escrever desta vez. Talvez alguma espécie de texto como o que se segue, no qual espalho de forma aleatória um amontoado de letras de maneira a que se torne com aspecto de parágrafo.

Pwiuegfiwqhf iuwhfo ifhoiehv ievehbviehvb ihv phvbivhbpui erbvieuhkjvcnkqj kjnv kljvn kevn qkjfh lkjfhk kevirfnbiuhf ifv pqiruhfilkh iwwih iphf piqhf iuhieuhfiufh iqufh qiufh ivhioufh iehbv kjnbc kjhvjhbdkj hefibvkjçkhriwe fmsnc pwuh kjsbc criqhf ijhpfiuqrfh piwrvkjhwrpoiuf wkjrh owrfho io bjhfv ojh ojevhoj rej he bhr brvbh vebh vr qbh ve r bvreb hvrebh vehb verhb vrhb vehb vr bevqih ru hreqvgiu hrqh oibrevhi bvreb hvreb hvrehb verhb vrhb orvb hvrhb vr hb vrhb vrehb vrebh vrehb ghb r bh evhb rvgeqhb re qhb vehb vebh vehbevgbh rgebh rhb ebh ebh hb rge hb rgqbh gr b hr lr hblrbh ebh lrgebh grqbh gr hb gr qhb g qrhb g qh b hif hqrhk lbrqh ui eqhb rq huifhiu grh rgh ui hhi eh be hihi rqiure qe.

Creio que se torna um pouco complicado ler o anterior amontoado porque obedece a uma linguagem que nos é desconhecida. Acredito que seja possível obter uma agradável sonorização com a sua leitura, mas esse é um trabalho que não o farei porque ir-me-á dar mais trabalho do que aquele que quero ter. Apesar disso, li a primeira das palavras, a “Pwiuegfiwqhf” e surgiu-me de imediato uma dúvida sobre a forma de absorver o W: terá ele um valor de V ou um valor de U? Eu optei por um V e dei mais uns toques ao longo da palavra, de tal forma que ela saiu-me ouvida como “Pveieichfivkif”. O resto do parágrafo não me interessa e não estou interessado em saber sobre o resto do parágrafo. E nem como se lê e nem como se ouve.

Uma outra coisa que posso juntar aqui, no lugar onde se supõe que se crie a tal história ou qualquer outra espécie de escrito, é a repetição da frase que constitui o título deste texto, sendo ela “Espaço contendo uma certa quantidade de letras que, quando organizadas da forma correcta, formam palavras que são, em si, um título”. Neste lugar, porém, deixa ela de ser o título para integrar, transformando-se, num elemento constituinte do corpo do texto que surge. Quer isso dizer que a mesma frase está englobada em dois pontos diferentes de uma mesma peça. A saber, o título e o corpo do texto. Ou talvez o esqueleto do texto ou até os nervos.

Da mesma forma que transformei o título numa frase integrante, poderei também transformar todo o corpo (ou esqueleto ou nervos) no título. E, nesse caso, terei de substituir o actual título pelos vários parágrafos que abaixo dele se desenvolveram. Nessa situação, o título seria tão longo como o texto que surge até ao momento de agora e o corpo (ou esqueleto ou nervos) seria a frase “Espaço contendo uma certa quantidade de letras que, quando organizadas da forma correcta, formam palavras que são, em si, um título”.

5 de Janeiro de 2012

A escadaria

Subi até ao topo de uma longa escadaria e lá em cima virei-me como se me preparasse para a descer mas não desci. Fiquei parado à espera que alguém subisse. Passaram uns momentos e lá subiu um homem comum, igual a tantos outros, que galgava degrau após degrau e quando alcançou o do topo dei-lhe um empurrão para que ele fosse caindo escadaria abaixo, ajudado pela força gravítica. Eu tinha como objectivo saber quem chegaria primeiro lá abaixo: se o homem caindo aos trambolhões, se eu descendo em veloz correria.

No início da corrida o homem levava alguma vantagem, não só porque foi ele o primeiro a partir, como também porque os trambolhões que dava escadas abaixo eram mais velozes do que a minha passada corrida. Eu tinha ainda a desvantagem de ter que acertar nos degraus para que não caísse e mergulhasse em queda desordenada rumo à meta. E esta era mais uma vantagem que ele tinha sobre mim porque ele não precisava de acertar em cheio em cada degrau, bastando-lhe deixar que a gravidade e as leis da física fizessem o trabalho por ele. É sabido que quando se desce a correr uma escadaria, podemos facilmente falhar um degrau e fazer desmoronar o nosso corpo numa queda tão vertical quanto o permite uma escadaria.

Escolhi uma altura mais calma do dia para que a quantidade de pessoas a subir ou a descer fosse menor, minimizando, assim, um incidente de percurso, podendo esse levar a uma qualquer alteração no resultado final da corrida. Assim, via aberta, lá fomos os dois. Eu corri os primeiros degraus tão depressa quanto me foi possível para que, lá mais para o meio do desafio, pudesse diminuir a velocidade, repousando um pouco para que, perto da meta, acelerasse novamente numa veloz ponta final.

Foi um pouco complicado alcançar o homem porque ele ia bastante rápido e nem as feridas e ossos partidos que sofreu logo ao início o fez abrandar e nem a minha veloz corrida inicial foi suficiente para diminuir a distância que ele levava de mim. Talvez eu o tivesse empurrado com demasiada força ou o homem fosse mais leve do que eu calculei.

Devido à sua rapidez inicial, não consegui sequer diminuir a distância que me separava dele e levou-me esse facto a fazer um esforço adicional durante os momentos em que eu previra diminuir um pouco a marcha no meio da corrida, guardando-me para a ponta final. E foi esse esforço adicional que me levou a aproximar dele um pouco mais para diante do que eu previra e no momento em que estávamos praticamente a par ele gritou-me “Tu não ganharás! Tu não ganharás!”. Eu virei-me para ele e sorri-lhe ligeiramente para que não me desconcentrasse muito com o sucedido, pois eu não estava à espera que ele me falasse daquela maneira.

E deu-se, finalmente, a ultrapassagem. Faltava pouco para a meta quando consegui passar para a frente da corrida e, melhor ainda, consegui guardar alguma energia para a minha aceleração final. Fui o primeiro a chegar ao fundo das escadas, ainda que com um curto avanço em relação a ele.

3 de Janeiro de 2012

Das bolachas e de outras coisas

Hoje comi bolachas. No pacote dizia que eram bolachas. Eu sei ler porque aprendi a ler e consigo ler a palavra “bolachas” no pacote e, por isso, sei que são bolachas. No supermercado também as encontro porque procuro pela palavra “bolachas”. Os meus pais também me disseram que os pacotes de bolachas costumam dizer “bolachas”, mas que há outras coisas que também têm palavras e que não são bolachas. O detergente não diz “bolachas” e os ovos também não.

Uma vez vi umas pessoas a comerem bolachas e foi muito divertido. Depois elas foram-se embora e eu fiquei ali à espera que chegassem mais pessoas que comem bolachas. Fiquei muito tempo à espera porque a minha barba cresceu e eu fiquei a cheirar muito mal. Um homem que passou por mim disse que eu deveria ir tomar banho mas eu disse-lhe que não podia ir. Não justifiquei a minha resposta porque achei melhor não dar a conhecer muitos pormenores sobre a minha vida.

Houve depois uma altura em que não costumava sair de casa, mas houve um dia em que saí, já foi há algum tempo e já não sei quando foi. Não apontei esse dia em lado nenhum e esqueci-me quando foi que saí de casa mas sei que não foi para comer bolachas. Quando saí, dei um saltinho para aterrar sobre o capacho da entrada porque sim. Comi também uma bolacha porque gosto de comer bolachas quando estou no capacho da entrada. Depois disso é que não comi nenhuma, quando saí de casa e quando saí de cima do capacho da entrada. O capacho é bonito e cheira bem. Costumo cheirá-lo antes de entrar e às vezes deito-lhe perfume para ficar a cheirar bem, mas eu não gosto do cheiro dos perfumes porque me fazem arder os olhos e os meus olhos ardem muito. É por isso que não uso perfumes mas às vezes ponho pasta de dentes no pescoço para ficar atraente. Espalho bem para não se notar e depois sento-me num banco de jardim à espera que alguma mulher de formas lascivas passe diante de mim e se abane de maneira satisfatória. No dia em que fiquei à espera de mais pessoas que comem bolachas também me sentei nesse banco de jardim. Sento-me sempre no mesmo banco quando vou àquele jardim. Quando não estou lá sentado costumo levar o banco para trás de uma árvore para que ninguém o ocupe e depois retiro-o de lá quando quero ir ao jardim sentar-me nele.

Quando passa diante de mim uma mulher de formas lascivas e que se abana satisfatoriamente, eu costumo apresentar-me e peço-lhe para cheirar o meu pescoço mas isso só aconteceu uma vez e ela chamou-me alguns nomes que não são o meu nome e agrediu-me com uma chapada. Depois segui-a porque concluí que ela me conhecia e apenas não se lembrasse do meu nome e foi por isso que me chamou todos aqueles nomes, tentando acertar num deles mas não acertou. A chapada foi, por certo, uma manobra de diversão tentando afastar quaisquer malfeitores. Talvez ela me conhecesse de alguma festa em que ambos participámos nos tempos da escola e desde essa altura se sentisse loucamente atraída por mim mas que nunca lhe foi possível declarar-se à minha pessoa. E segui-a até casa e depois arrombei-lhe a porta uns momentos depois de ela entrar. Ela ficou muito assustada e correu rapidamente para o telefone mas eu corri mais e tirei-lhe o telefone da mão para que ela não se perdesse em paixonetas secretas via telefone através de alguma linha a isso destinada. Depois tentei abraça-la porque sim e ela fugiu outra vez e conseguiu sair de casa e correu para a rua. Eu saí logo a seguir mas já não a vi em lado nenhum porque ela deve ter corrido muito rápido e, por isso, fui para casa. Era deveria querer que eu a seguisse mas não deveria ter ido tão rápido para o restaurante. Depois fui para casa e dei um saltinho para aterrar sobre o capacho da entrada e baixei-me e cheirei-o e cheirava bem mas arderam-me os olhos.

20 de Dezembro de 2011

Do buraco

O chão da minha sala abriu-se e do buraco espreitou a cabeça de uma mulher. Ela perguntou-me se estava na sala da minha casa e eu respondi-lhe afirmativamente e, logo após, ela saltou para fora do buraco. A mulher olhou para mim dizendo-me que os seus familiares deveriam estar para chegar, o marido, dois filhos, uns tios, alguns primos e a irmã mais nova e o seu marido. Eu disse-lhe educadamente que poderá aguardar por eles sentada no sofá e ela acedeu. Dei-lhe um pouco de água, pois parecia-me estar com sede e talvez não me quisesse incomodar pedindo-me para lhe saciar a sede. Bebeu do copo que lhe dei e ficou uns momentos em silêncio. Eu sentei-me na poltrona perto do sofá.

— Quem vem a guiar o grupo é o meu marido — disse a mulher. — Eles precisam de parar de vez em quando para que os meus tios descansem. Eles já têm uma certa idade e cansam-se facilmente.
— Vocês vêm de muito longe? — perguntei.
— Sim, um pouco. Saímos há cerca de quinze dias e desde então temos vindo sempre a caminhar rumo à sua sala.
— Mas você foi a primeira porquê? Veio em caminho exploratório, abrindo caminho para os outros?
— Não, não, claro que não. O líder da expedição é o meu marido mas todos nós sabemos o percurso. Antes de partirmos decorámos em pormenor o mapa para se nos separássemos do grupo sabermos exactamente onde nos voltarmos a reunir. Eu vim à frente porque abdiquei de duas pausas para descanso e isso deu-me alguma vantagem em relação aos outros.
— Então o resto da sua família sabe exactamente em que ponto você se encontra agora.
— Com precisão não devem saber, mas têm uma ideia de que já estou na sua sala ou que estou para chegar.
— Quer outro copo de água?
— Não, obrigada, já estou bem assim. Espero que não se importe que eu aguarde aqui na sua sala pela chegada dos outros.
— De maneira nenhuma e, além disso, se o vosso ponto de destino é a minha sala, não vejo por que me hei-de importar.
— Poderia preferir que eu aguardasse no exterior da sua casa, por exemplo.
— Não, não é necessário. Fique à vontade. Não vale a pena sair para voltar a entrar.
— Sim, nesse aspecto você tem razão.
— Então mas diga-me, a viagem correu-lhes bem?
— Correu sim. Não houve percalços de maior. Apenas houve um ou dois problemazitos sem importância e que foram resolvidos prontamente — disse a mulher sorrindo um pouco. — Sabe, eu sou muito orgulhosa do meu marido, ele é um líder nato e é capaz de resolver os imprevistos como ninguém. Ele fez um trabalho excepcional para este percurso, não só nos ajudou a decorar o mapa, como também pela sua exímia condução através de todo o caminho. O meu marido liga imenso aos pormenores e dá um grau extremo de atenção a cada partícula de qualquer coisa. Estou certa que ele conhece meticulosamente cada pedaço do percurso.
— Não se sentem exaustos ao fim de quinze dias de caminhada?
— Não. Avançámos sempre num ritmo económico mas eficiente e o gasto de energia foi mínimo.

Do interior do buraco aberto no chão da minha sala, ouviu-se à distância uma voz máscula chamar.

— Querida! Querida! Já chegaste?
— É o meu marido! — exclamou ela alegremente e de um salto levantou-se do sofá e debruçou-se sobre o buraco. — Já cá estou, meu amor! Já cá estou! Vocês estão todos bem?
— Sim querida, estamos todos bem. Estamos quase a chegar!
— Está bem, meu tesouro!
— Pensei que demorassem um pouco mais a chegar — disse-lhe eu. — Como tinha dito que abdicou de duas pausas para descanso, julguei que a diferença fosse maior.
— Eles devem ter abdicado de uma pausa e como eu descansei uma vez depois de me separar do grupo, devo ter perdido a vantagem que trazia porque demorei bastante nessa pausa. E também é possível que eles tenham acelerado um pouco a marcha por terem poupado muitas energias pelo caminho e até os meus tios mais velhos estão aptos a acelerar um pouco nesse caso.
— Sim, certamente foi isso. O vosso grupo é muito grande?
— Somos dezassete: eu, o meu marido, os nossos dois filhos, a minha irmã e o marido, três casais de tios e cinco primos. Os tais tios de mais idade é apenas um casal, os outros são bastante mais novos e os primos são filhos dos dois casais mais novos. São três primas e dois primos.

Das entranhas do buraco começou a ouvir-se o som de pessoas conversando amigavelmente, mas ainda sem se perceber palavra alguma. Ouviu-se também a voz de crianças.

— Já se ouvem, caro senhor! — disse-me a mulher.
— Pois já, mas ainda não se percebe o que dizem.
— Mais uns metros e chegam cá.

Ficámos em silêncio enquanto as vozes se iam aproximando, até que a cabeça de um homem brotou do buraco do chão.

— Olá querida! — disse o dono da cabeça com um sorriso nos lábios.
— Olá meu amor! Ainda bem que já chegaste!

De um salto quase acrobático, o homem extraiu-se do interior do buraco e aterrou no chão da minha sala. Um homem grande, possante e relativamente musculado. O casal abraçou-se e beijou-se e logo depois surgiu a cabeça de um menino, um dos filhos, que também saiu do buraco, rapidamente seguido pelo irmão mais novo. E foram surgindo todos os outros membros do grupo. Os únicos que necessitaram de uma pequena ajuda para sair foram os tios mais idosos. Por fim, todos os dezassete ocuparam a minha sala.

— Permita dar-lhe um aperto de mão, prezado senhor — virou-se para mim o macho alfa estendendo-me a mão.
— É um prazer — respondi-lhe cordialmente.

De seguida apresentou todos os membros do grupo, um a um.

— Se não se importar — disse-me o homem — eu e o meu grupo vamos ficar aqui na sua sala durante os próximos tempos.
— Não, claro que não me importo. Fiquem à vontade.

E com isto, todos os dezassete posicionaram-se um pouco espalhados por toda a sala. Uns sentaram-se no sofá, outros ficaram em pé, outros sentaram-se no chão.

Nada de muito relevante aconteceu nos dias seguintes. Eu continuei a fazer a minha vida normal e de todos os dias: de manhã saía para o emprego, regressando ao final da tarde; as compras necessárias no supermercado e as saídas para um ou outro lugar. Enquanto isso, o grupo mantinha-se calmo e quase silencioso. Ouvia-se, por vezes, uma ou outra conversa entre alguns elementos mas esta era efectuada em baixo volume de modo a não estorvar.

Até que, por fim, um dia, quando cheguei do emprego, o macho alfa dirigiu-se a mim:

— Caro senhor, agradecemos a sua hospitalidade mas está na altura de seguirmos viagem.
— Ora essa — respondi-lhe. — Foi um prazer tê-los na minha sala.

E pela porta, um a um, sempre liderados pelo possante alfa, saíram.

4 de Dezembro de 2011

O livro

Que me traria o livro quando cá viesse mas ainda não veio. A plateia encheu-se de gente. O homem dos bilhetes anda por aí, não sei onde está agora, deve estar por aí e deve ter os bilhetes na mão. Quando há muita gente, ele anda por aí. As pessoas compram-lhos e ele vende os que Já devia ter chegado, eu preciso que me traga o livro. Não sei onde está Conheço aquela mulher, já cá esteve, foi ontem acho, acho que foi ontem e veio com um homem, devia ser o marido, um sujeito elegante e ela é maior, ele usava fato e cartola. Ela trazia qualquer coisa na mão, não sei o que era, estava muito longe para perceber. Já não é a primeira vez que ele se atrasa, vou deixar de lhe emprestar o livro, ele sabe que preciso dele e não mo traz a tempo, digo-lhe quando chegar. Gosto da cara dela, é atraente Está com um homem, deve ser o namorado, talvez seja O irmão não deve ser. Devem estar quase a apagar as luzes, ainda não vi o homem dos bilhetes, ele costuma vir aqui e ainda não veio. Não sei como poderei chamar a atenção dela, com ele ao lado. Se ele fosse à casa-de-banho seria mais fácil. Mas eu não quero. Só preciso do livro. O grupo do costume, estão cá sempre, quase sempre. Já os encontrei antes de entrarem, reúnem-se ali, lá fora, em frente E o outro com a mulher, sempre os dois. Foi qualquer coisa ali, não sei muito bem, acho que sim. E depois desapareceu, parece que sim, não me lembro, contaram-me há muito tempo Esqueci-me. Trouxe a caneta, esqueci-me no outro dia. Não sei quando foi, a outra semana, acho, antes, antes dessa. Pedi-a. Não sei muito bem, não me lembro. O gordo também veio, estou farto dele, fala muito alto. O amigo do gordo e o outro magricela e a amiga do magricela, nem uma coisa nem outra A cortina está ss e ali também, têm que limpar, alguém tem de limpar Digo para limparem, fica feio, dá mau aspecto, mas é pequeno, ninguém vê. Já lá vem, o livro Não. Parecia, o homem é parecido. Se alguém limpasse ali não se notaria, têm que limpar melhor, isto está muito sujo. Vão comentar que está tudo sujo e ninguém vem. Sentou-se e também. Não sei quem é, nunca cá a vi. Deve ser a primeira vez que vem, deve ter ouvido falar, não sei. Ou alguém lhe disse. O homem não sei, também não vi, alguém lhe disse. Ouviram do gordo porque fala alto e ouviram do gordo. O magricela não fala alto. Não fala. Alto e fala baixo e nem se ouve. Ela não sei, nunca ouvi a voz dela. O gordo toda a gente já ouviu. Ali também está sujo. Merda que isto está, eu não sabia que estava assim. Sujo, muito sujo. Preciso de saber quem não limpa isto. Depois trato disso, quando começarem trato disso, agora não. Depois do livro. Não sei quando limpam Às vezes vejo limpar, mas está sujo. Não pode estar assim. O teatro mais sujo. Ninguém virá. Sujo, muito sujo Que porcaria. Fica nos dedos, da parede. Sujo nos dedos Pó, não sei. Pó. Não limpam isto. Que ninguém se encoste às paredes. E ao chão. E ninguém se senta. Suja a roupa. E o da cartola, a mulher dele. O gordo também. O magricela e a mulher. O livro, já lá vem. Agora é.

27 de Novembro de 2011

Vírgula

Vírgula.

Eu escrevi “vírgula”. Poderia ter posto mesmo uma vírgula, como esta: , mas não pus porque preferi escrever vírgula ponto É maiúsculo por ter preferido escrevê-la vírgula foi também por isso que optei por ser ela não só o título deste texto como também a primeira palavra que nele surge parágrafo

Enquanto escrevia abre aspas título deste texto fecha aspas no parágrafo anterior vírgula lembrei-me que já tenho vários textos aqui neste blogue cujo título contém a palavra abre aspas texto fecha aspas e talvez já se esteja a tornar repetitivo ponto Ainda não pensei muito nisso mas é provável que assim seja parágrafo

Ora vírgula dizia eu sobre ter escrito a vírgula em vez de a ter apresentado na sua forma habitual abre parêntesis que é aquela que todos nós conhecemos fecha parêntesis ponto Talvez não me tenha apetecido e tenha preferido escrever vírgula ponto Não sei muito bem porque o fiz ponto Talvez me tenha apetecido parágrafo

Quanto às maiúsculas que vão surgindo vírgula deixei-as na sua forma original vírgula à excepção do E maiúsculo do início do texto ponto Mas poderia ter feito qualquer coisa como dois pontos abre aspas abre parêntesis reticências fecha parêntesis talvez já se esteja a tornar repetitivo ponto ene(maiúsculo)ão pensei muito nisso fecha aspas parágrafo

Para os acentos poderia ter optado pela forma que implica escrever do que se trata imediatamente a seguir à letra que sofre acentuação ponto Aqui no exemplo para a palavra abre aspas parágrafo fecha aspas dois pontos parabreparabreparabreparabrepar e por aí adiante ponto Esta solução gera um problema que implica não sair da mesma palavra porque vírgula tendo a palavra abre aspas parêntesis fecha aspas um E com acento circunflexo vírgula teria de estar constantemente a abrir parêntesis sem nunca os fechar ponto Assim vírgula optei por manter os acentos parágrafo

O hífen é outra coisa que poderia ter substituído e assim ficaria dois pontos abre aspas escrevê hífen la fecha aspas parágrafo

E com acentos ou com palavras vírgula este escrito fica por aqui parágrafo

22 de Novembro de 2011

Texto para não ser dito de forma cantada ou talvez também

Portanto cante, caro leitor. Cante por aí qualquer coisa enquanto eu me quedo por aqui tentando escrever algo que se assemelhe minimamente a um texto escrito. Não interessa se escrito à mão ou se com teclas, o que interessa é que seja escrito e que surja como tal. Escrito. E depois serve para ler. E depois tanto me faz.

Se estiver com dificuldades em encontrar uma cantiga que lhe pareça apropriada ou uma outra cujos dotes vocais se coadunam com os seus, aconselho-o a rodar o botão do rádio até se sentir engraçado com uma cantiga. Se o seu rádio for daqueles que já não têm botão que serve para rodar, então esqueça a frase anterior e faça de conta que nunca a leu. Depois de fazer de conta que nunca a leu, finja que nada sabe sobre ela. E depois tanto me faz, faça como melhor entender.

E já que estamos numa de cantoria, parece-me conveniente que aqui sejam espalhadas as notas musicais: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si. Não vou incluir mais nada para além das notas, nem colcheias, nem semi-colcheias, nem nada desses desenhos engraçados que surgem ao longo de uma pauta. E há também a clave de sol que é grande. E as linhas onde ficam os desenhos engraçados são paralelas entre si. Num hipotético conceito da física teórica, dir-se-ia que essas linhas são linhas paralelas entre si. Este é, aliás, um importante princípio da astrofísica nuclear, que as linhas são paralelas entre si. Pelo menos até aparecer um buraco negro. Se houver um pulsar nas imediações, a questão já não se mantém dado o seu período de pulsação e as linhas deixam de ser paralelas entre si e constroem-se de maneira a que a distância entre cada linha seja sempre constante. E isto é uma importante teoria que tem vindo a ser desenvolvida pelos mais importantes cientistas da actualidade, entre os quais se encontra aquele que é mesmo o mais importante. Eles costumam reunir-se periodicamente, de acordo com o período do pulsar, para debater os efeitos da paralelidade das linhas da astrofísica nuclear. Eles costumam munir-se de régua e esquadro para traçar as linhas nas folhas de papel que sempre trazem consigo. E depois ficam com o papel cheio de linhas paralelas e, logo a seguir, trocam o papel uns com os outros para que se possam perder em elevados cálculos de altas matemáticas e ciências afins.

14 de Novembro de 2011

O meu costumeiro hábito durante uma conversa

Tenho, por hábito, encostar a ponta do meu dedo indicador direito na cara da pessoa com quem falo e assim se mantém enquanto a conversa se desenvolve. De uma maneira geral, o meu interlocutor não aprecia grandemente que eu lhe encoste o dedo à cara. Pensei a princípio, quando comecei a reparar que a maioria das pessoas não gosta que o faça, que o problema fosse do dedo e, por isso, optei por encostar o polegar da mesma mão na face do indivíduo com que falo. Como o problema se mantinha, escolhi depois, a partir de certa altura, encostar o dedo indicador da mão esquerda no mesmo lado da cara da pessoa porque, assim, talvez ela gostasse. Mas essa posição não dava muito jeito ao bom andamento da conversa porque, sendo eu uma pessoa destra, é-me mais fácil tocar a face esquerda da pessoa com quem converso e, escolhendo eu a mão esquerda, teria que fazer o cruzamento de todo o braço esquerdo entre o meu corpo e o corpo da pessoa e tinha até que me torcer um pouco de maneira a conseguir encostar o dedo de forma conveniente na cara do outro.

Encostar algum dedo da mão esquerda na cara da pessoa com quem falo foi uma ideia que rapidamente coloquei de lado, não sem antes experimentar fazê-lo com a mesma mão na face direita do outro sujeito. Mas não era a mesma coisa e voltei ao uso da mão direita e ao seu indicador.

Enquanto mantenho a conversa, deixo o indicador estático e estacionado num lugar aproximadamente central da cara do meu interlocutor e não faço muita força para não provocar nenhuma situação danosa. Em algumas conversas, consoante a pessoa com quem troco ideias, deixo o dedo resvalar para dentro da boca da pessoa e toco-lhe na língua e nos dentes e, às vezes, na epiglote. Depois tiro o dedo da boca e volto a fixá-lo na face.

Como a minha mão esquerda está livre, é essa que uso para gesticular um pouco durante a conversa. Não gesticulo muito e os meus gestos são bastante contidos e razoavelmente elegantes, mas costumo acompanhar as ideias que transmito com um ou outro gesto que me pareça adequado. Já me aconteceu interromper subitamente o que dizia por não saber qual gesto utilizar como complemento à palavra verbal e precisei, inclusive, de ensaiar dois ou três gestos de forma a que me saísse o adequado. Quando ensaiei, deixei de encostar o indicador à cara da outra pessoa e, com a mesma mão, cobri-lhe ambos os olhos para lhe ocultar não só o ensaio como também o gesto que escolhi porque eu queria que esse gesto parecesse que tinha surgido de forma natural. Ao conseguir o gesto perfeito, destapei-lhe os olhos e regressei com o dedo à face e, logo após, dei reinício à conversa, sabendo já qual o gesto a utilizar.

A maior parte das vezes em que converso, estou parado de pé diante do meu interlocutor, mas por vezes acontece conversar sentado numa esplanada ou noutro lugar e, quando converso, apenas me dirijo a uma pessoa de cada vez porque tornar-se-ia complicado dirigir-me a mais intervenientes em simultâneo porque só tenho um dedo indicador livre porque o outro está na mão esquerda, que utilizo para gesticular. Durante as refeições nunca converso porque preciso das duas mãos para comer.

Quando apenas me cruzo com alguém que conheço, indo eu para lá e o meu conhecido para cá, costumo dizer-lhe “Boa tarde” e rapidamente toco-lhe na cara porque não há tempo para lá deixar o dedo.

Aconteceu-me um dia uma situação caricata: eu tinha sido convidado para visitar um casal amigo em casa deles e, no preciso momento em que tocava a campainha, surge repentinamente um outro amigo que me cumprimenta. Foi-me necessário atrasar uns momentos o meu cumprimento porque não lhe podia responder de imediato porque tinha o dedo a pressionar o botão da campainha. Enquanto isso, esse meu amigo ficou esses momentos parado à espera que eu o cumprimentasse quando tivesse libertado o dedo do botão. Depois coloquei-lhe o dedo na face e disse-lhe “Boa tarde”. Ele mora perto do casal e apenas tinha passado por ali e, por isso, a conversa com ele foi curta, durando apenas até me abrirem a porta. Entrei, cumprimentei-os, estivemos um pouco à conversa e, um pouco antes de jantar regressei a casa. Eles convidaram-me para jantar mas eu recusei, dizendo que já tinha jantar pronto em casa e que só precisaria de o aquecer. Nestas situações em que a conversa abrange mais do que duas pessoas, sendo eu uma delas, vou alternando o dedo de cara em cara, consoante a pessoa a quem me dirijo. Se eu tiver que dizer a mesma coisa a várias pessoas, tenho que repetir a mesma ideia directamente a cada um pondo, à vez, o dedo na respectiva face.

12 de Novembro de 2011

Não me apetece dar um título a isto

Se aqui surgiu vindo do nada, sendo o nada um lugar algures nos arrabaldes internos da Internet, informo-o, excelso leitor, que chegou a um espaço que se chama “O blog do anti-Homem” (se tiver dúvidas ou julgar-me mentiroso ao ponto de o enganar sobre o nome, eleve os seus olhos e atente naquela espécie de tabuleta que está ali mesmo em cima, no topo da página). Após confirmar, agradeço que atente no segundo parágrafo desta tramóia que diante de si exercito.

Segundo parágrafo: este blogue é constituído por textos que vou escrevendo e, até à data, são cento e cinquenta e tal. Não sei muito bem quantos são, por isso digo que são cento e cinquenta e tal. É verdade que, se eu desse um salto até aos arquivos do blogue, poderia saber o número exacto, informando-o com toda a certeza, mas não me apetece e prefiro deixá-lo na incerteza. Alguns deles foram por mim escolhidos para integrarem uma lista de elite à qual chamei “Sugestões de Leitura”, que pode ser encontrada se, mais uma vez, içar os olhos e reparar numa entrada que diz “Sugestões de Leitura”. Aí entrado, encontrará uma série de ligações directas a cada um dos escolhidos e se lhe aprouver a leitura de um deles, basta clicar sobre a frase que forma o título. Siga agora para o terceiro parágrafo.

Terceiro parágrafo: se ainda não conhecia O blog do anti-Homem, então passou a conhecer, como facilmente pode comprovar se seguir as instruções que lhe dei numa das primeiras frases que vai construindo este escrito. Siga para o parágrafo seguinte e seguintes.

Parágrafo seguinte: chegou ao parágrafo seguinte.

Parágrafo que vem depois do parágrafo seguinte: neste blogue encontra vários tipos de texto: alguns são contos, outros nem tanto. Para se aperceber do que há, procure na barra lateral uma coisa que diz “Secções d'o blog do anti-Homem”.

Outro ainda: há também um índice onde se agrupam os textos organizados pela letra inicial do título.

Mais um: depois de toda esta fastidiosa explanação acerca de um blogue, cabe-me também informá-lo, magnificente leitor que possuo também uma página no Facebook, através da qual poderá também ir acompanhando não só o trabalho que vou desenvolvendo aqui n'o blog do Anti-Homem, como também o que vou fazendo nas artes plásticas ou ainda qualquer outra informação que me pareça útil.

Assim, excelso leitor, se gostar do que vai acontecendo neste blogue, quando estiver na minha página do Facebook (clicando aqui), poderá utilizar o cursor e clicar em “Gosto”.

Agora, suba para cima de uma cadeira e leia novamente este texto como se estivesse num palco, representando uma peça de Shakespeare. Depois, quando se encontrar no seu emprego ou lugar de estudo, suba novamente para uma cadeira e leia este mesmo texto da forma mais épica que conseguir encontrar. Quando chegar a este ponto do texto, eleve os olhos e reinicie-lhe a leitura.